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Tempo livre a 25 de março não produz

  • Foto do escritor: oquengmcontaa
    oquengmcontaa
  • 8 de abr.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 8 de abr.

Hoje, mais do que nunca, parece existir um consenso silencioso sobre como uma vida “boa” deve ser vivida.


Treinar com frequência.

Comer melhor.

Cuidar do corpo e da mente.

De preferência, tudo isso integrado à rotina de trabalho.


Se você não consegue encaixar 30 minutos de exercício no seu dia, algo está errado.


Pelo menos é isso que a narrativa dominante faz parecer.


Mas o que está por trás dessa ideia?


Vivemos em um momento em que aplicativos, academias populares e discursos sobre saúde dão a sensação de que o bem-estar finalmente se tornou acessível.


E, em partes, ele se tornou mesmo.


O que ainda não se democratizou foi o tempo.


Para muita gente, o dia começa cedo demais

Às seis da manhã o corpo já está funcionando.

Às sete, em deslocamento.

Às nove, disponível para trabalhar.

E, se tudo der certo, e o metrô não parar, ás oito estaremos em casa. 


Entre baldeações, transporte lotado e jornadas extensas, o corpo chega cansado.

E ainda assim, existe a cobrança: treine.

Cuide de si.

Faça melhor.


Enquanto isso, há quem treine às onze da manhã.


Quem vá para o escritório com roupa de academia.

Quem transforme o autocuidado em estética e rotina.


Não se trata apenas de escolha individual.

Trata-se de quem pode escolher.


Esse estilo de vida, vendido como saudável, equilibrado e possível não foi desenhado para todos.

Ele pressupõe flexibilidade de horário, autonomia, previsibilidade.

Pressupõe que o tempo não seja um recurso escasso.


Ter tempo livre virou um marcador social.

Mais do que o corpo em movimento, o que está em jogo é a possibilidade de pausa.


Uma pesquisa do Datafolha aponta que 49% das pessoas que não praticam atividade física citam a falta de tempo como principal motivo.


Não é falta de informação.

Não é falta de vontade.

É falta de tempo.


E isso muda completamente a conversa.


A 25 de Março produz a réplica da bolsa, do conjunto fitness, do tênis e dos acessórios.


Mas não produz tempo.


E talvez seja isso que mais incomode.

Porque, na moda atual, não basta parecer saudável.

É preciso parecer disponível.


E disponibilidade, no Brasil, ainda é privilégio.



Referências usadas nesse texto:


Datafolha: mais ricos e escolarizados praticam mais atividade física no Brasil


Atividade física de lazer na população adulta brasileira: Pesquisa Nacional de Saúde 2013 e 2019


1 comentário


Bruna Martins
Bruna Martins
14 de abr.

Nossa que demais. Esse texto está exatamente com o sentimento que estamos no momento. Ótimo!!!

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