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Machismo no Funk: Entre a Resistência e a Objetificação da Mulher

  • Foto do escritor: oquengmcontaa
    oquengmcontaa
  • 28 de abr.
  • 3 min de leitura

Recentemente, a exposição “Funk: Um grito de Ousadia e Liberdade” (em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, com entrada gratuita aos finais de semana) trouxe à tona diversos caminhos de reflexão sobre o movimento. A mostra evidencia o funk como uma poderosa ferramenta de comunicação cultural. No entanto, diante do atual cenário de violência contra a mulher, um recorte específico se faz urgente: como debater o machismo no funk e o seu papel como possível instrumento de perpetuação de opressões?


A Origem do Funk como Ferramenta de Resistência

O funk é historicamente reconhecido como uma forma de resistência da cultura periférica. Surgido na década de 1970 no Rio de Janeiro, sob forte influência do soul, do rap nova-iorquino e do Miami bass, o gênero consolidou sua identidade musical nos anos 90 com o chamado funk carioca.

Ele comunica vivências, expõe desigualdades e dá voz a territórios que, por muito tempo, foram silenciados. Contudo, como toda expressão cultural de massa, o movimento também carrega suas contradições.


O Ecossistema do Funk e a Objetificação Feminina

Dentro do gênero, existe um ecossistema diverso de narrativas. O foco desta análise, no entanto, é entender como parte dessas letras constrói a imagem da mulher, dialogando diretamente com discursos machistas que ganham cada vez mais força na sociedade, como a retórica red pill.

Mesmo sendo uma ferramenta de resistência, isso não impede que o funk reproduza estruturas de opressão. Em algumas vertentes, a mulher é retratada de forma extremamente reduzida, associada apenas ao desejo masculino, ao consumo e à objetificação. Em certos casos, essas representações chegam a flertar com a naturalização da violência.

Essa construção não acontece isoladamente. Ela está conectada a um imaginário de masculinidade que aparece com força nessas composições: o homem poderoso, que ostenta, que tem dinheiro e, por isso, exerce controle. Se o dinheiro compra status e validação social, a mulher inserida nessa lógica passa a ser tratada como um bem que pode ser adquirido, usado e descartado.


Puta ou Santa? A Dualidade nas Letras de Funk

Em contrapartida à hipersexualização, existe um outro lugar destinado à mulher: o da figura materna.

No artigo “Puta ou Santa? Os antagônicos discursos sobre mulheres nas letras de funk”, a pesquisadora Fabíola Peres evidencia essa dualidade: ou a mulher é sexualizada e consumível, ou é santificada e intocável. E aqui surge uma provocação importante: se a mãe é colocada nesse lugar quase sagrado, ela ainda é vista com as complexidades de ser mulher? Enquanto uma é elevada à santidade, as outras seguem sendo reduzidas a objetos.

O dinheiro, nesse contexto, ganha significados duplos: serve como salvação para a mãe, e atua como ferramenta de acesso e controle sobre outras mulheres. No fundo, a categorização feminina e a valorização masculina baseada em poder revelam uma estrutura que vai muito além da música. O que muda é apenas a embalagem.


O Perigo da Normalização para o Público Jovem

O funk comunica a realidade. Mas, em alguns momentos, também ajuda a normalizar elementos problemáticos dessa mesma realidade. Isso se torna ainda mais sensível quando pensamos em quem consome essas narrativas.

Grande parte do público do funk é jovem, em fase de formação de repertório, valores e percepção de mundo. Quando discursos que objetificam, diminuem ou até flertam com a violência contra a mulher são repetidos massivamente, eles deixam de ser apenas entretenimento e passam a atuar como referência.

Naturalizar esse tipo de linguagem para meninos tão novos é preocupante. Não se trata apenas do que é cantado, mas do que é aprendido, reproduzido e legitimado.


Resistência e Contradição

Reconhecer o funk como resistência cultural não pode nos impedir de enxergar onde ele também reproduz aquilo que oprime. Ser resistência em uma causa não isenta um movimento da reprodução de outras opressões, e é por isso que essa análise — por mais desconfortável que seja — é estritamente necessária.

E você, como enxerga a dualidade da representação feminina na música atual? Compartilhe sua visão nos comentários abaixo e vamos expandir esse debate. 



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